Quando a voz feminina vira ameaça
Para mulheres, exercer a própria voz ainda significa assumir riscos




Artigo Por : Edna Antunes | Escritora
No Irã, mulheres vão às ruas desde dezembro de 2025 para reivindicar
algo básico: existir sem medo. Cortam o cabelo, retiram o véu, gritam os
nomes de mulheres assassinadas pelo próprio Estado. O mundo assiste às
imagens e aguarda que a repressão não termine em mais mortes.
Mas será que as mulheres do nosso Brasil também não estão sangrando
e gritando por esse mesmo direito?
Aqui, não há polícia da moral arrancando mulheres de protestos devido a
um véu. Mas há números que expõem uma realidade igualmente brutal.
Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou
1.459 feminicídios em 2024, o maior número já contabilizado no país, o que
significa que quatro mulheres foram mortas por dia simplesmente por serem
mulheres. Não se trata de casos isolados, mas de uma repetição sistemática
da violência.
O cenário do estupro é ainda mais alarmante. No mesmo período, foram
registrados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, o maior número
da série histórica. Isso equivale a uma mulher ou menina violentada a cada
seis minutos no Brasil. Em média, 239 vítimas por dia. Esses números, por si
só, já desmontam qualquer discurso de exagero ou vitimismo.
No Irã, o corpo feminino é controlado pelo Estado. No Brasil, é
negligenciado pela sociedade. Por uma cultura que ensina, desde cedo,
mulheres a serem discretas, cuidadosas e silenciosas. A roupa vira
provocação. A fala, exagero. Discursos de ódio passam a ser tratados como
simples opiniões de homens conservadores. Mulheres brutalmente
assassinadas por seus parceiros são responsabilizadas pela própria morte.
Todas essas violências fazem parte de uma realidade que a escritora
que aqui fala presenciou de perto, com espanto e medo.
Quando mulheres iranianas protestam, o regime responde com
repressão explícita. Quando mulheres brasileiras denunciam, muitas vezes a
resposta surge como descrédito, falha na concessão de medidas protetivas
eficazes ou ausência de visibilidade. A morte de mulheres já não causa
comoção; tornou-se um dado recorrente, perdido entre outras manchetes.
O feminicídio não é um crime passional. Assim como o estupro não é um
desvio individual. São manifestações extremas de uma estrutura que
transforma o corpo feminino em território de poder. Matar uma mulher por ela
ser mulher é um recado social. Estuprar é uma ferramenta de dominação.
Ambos dizem: “Você não manda aqui”.
Há algo profundamente político no controle do corpo feminino. Não se
trata apenas de violência física, mas de quem decide como a mulher deve se
vestir, se comportar, amar ou calar. Quem define quando sua dor é legítima e
quando é exagero. Quem se beneficia do silêncio.
Por isso, a luta das mulheres no Irã não é distante. Ela dialoga
diretamente com a realidade brasileira. Em contextos distintos, mulheres
enfrentam o mesmo inimigo: sistemas que se sustentam no medo feminino. A
repressão violenta de um regime autoritário e a violência cotidiana de uma
democracia desigual são faces diferentes de uma mesma estrutura patriarcal.
Quando uma mulher fala, ela rompe um ciclo histórico de silenciamento.
Quando denuncia, paga um preço alto, psicológico, social e, muitas vezes,
físico. Ainda assim, fala. Escreve. Denuncia. Vai às ruas. Porque o silêncio
nunca nos protegeu.
Igualdade não é concessão. Não é favor. Não é exagero. É um direito
básico que continua sendo tratado como ameaça. E toda vez que uma mulher
é silenciada, seja por leis, por armas ou por estatísticas ignoradas, toda a
sociedade fracassa.
Então, com um profundo apelo, peço que se junte à nossa causa.
Porque permanecer indiferente também é uma forma de escolha.
Referências:
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública
2024. Dados sobre feminicídio e estupro no Brasil.
ONU MULHERES. Violência contra mulheres e meninas no mundo. Relatórios e dados oficiais.
ANISTIA INTERNACIONAL. Irã: repressão aos protestos e violações de direitos das mulheres.
Relatórios publicados após 2022.
HUMAN RIGHTS WATCH. Iran: Women’s Rights and State Repression. Relatórios sobre
controle do corpo feminino e repressão estatal.
AGÊNCIA PÚBLICA. A morte de Mahsa Amini e os protestos liderados por mulheres no Irã.
Reportagens especiais.
Publicação exclusiva : Top News Goiás



